Letramento Racial nas Escolas
- Irium Educação

- 19 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Uma entrevista com a professora Larissa Santos
Por Caio Pinheiro
“O racismo é um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato da vontade de um indivíduo”, escreveu Djamila Ribeiro em Pequeno Manual Antirracista. O livro parte do princípio de que reconhecer o racismo não basta: é preciso combatê-lo com ações concretas, mobilização e enfrentamento de estruturas. Em outras palavras, é necessário ser antirracista.
Nesse contexto, convidamos a professora Larissa Santos, especialista em letramento, para traçar um panorama da educação brasileira no enfrentamento ao racismo e explicar por que o letramento racial é um dos caminhos mais sólidos para uma escola realmente antirracista.
O cenário educacional atual
Para compreender a necessidade de ações antirracistas na educação, é preciso reconhecer que o Brasil foi construído sobre bases raciais profundas, e a escola reflete este projeto histórico. Larissa explica esse ponto ao conceituar colonialidade:
“Essa criação da ideia de raça a partir da construção do outro é oriunda da colonialidade, e a escola vai sofrer a consequência racial, porque é um espelho da sociedade e ela representa o que a sociedade vive. E apesar de hoje já termos alguns avanços, a gente discute sobre a questão racial ainda de forma muito superficial.”
Desde 2003, a Lei 10.639 tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira na educação básica. No entanto, em grande parte das escolas, esse conteúdo ainda fica restrito ao 20 de novembro, sem integrar o currículo de maneira permanente e significativa.
Isso se torna ainda mais sensível na rede privada, onde o tema muitas vezes aparece apenas como projeto pontual. É o que destaca Larissa:
“O estudo não pode trabalhar apenas pelo recorte racial, mas de identidade, religião e culturas afro-indígenas. A construção desse currículo não pode ser por um viéis eurocêntrico, mas da nossa realidade.”
Desafios para construir uma educação antirracista
O primeiro grande obstáculo é a falta de acesso à informação, e, em muitos casos, a falta de disposição para buscá-la. Larissa destaca:
“Eu penso a partir da perspectiva do conhecimento e sei que o conhecimento liberta. Bell Hooks fala que a sala de aula é um espaço de esperança. Quando falta conhecimento, você não domina, você não fala. E há profissionais que tratam o tema como tabu, muito por medo de alguma repressão. A falta de conhecimento e o medo são recorrentes.”
Outro ponto é a formação ainda pautada em uma visão social genérica, que ignora identidade racial. Larissa cita Neusa Santos Souza para reforçar:
“A gente se torna negro e nos construímos negros. Por isso a necessidade de uma formação social, histórica e racial.”
Sem essa perspectiva, o currículo continua reproduzindo silenciamentos históricos.

Apesar da lei 10.639 que obriga o ensino da história afro-brasileira na escolas, segundo levantamento do Instituto Alana, cerca de 70% das cidades brasileiras não cumprem a medida. (Foto: Bárbara Dias/NOVA ESCOLA )
O que é letramento Racial?
Letramento racial é o conjunto de práticas que ensina a reconhecer, analisar e combater o racismo, compreendendo como ele se estrutura e se manifesta nas relações e nos espaços.
Larissa explica:
“Letramento significa ler o mundo, e o letramento racial parte do princípio que não adianta apenas não sermos racistas, precisamos ser antirracistas. A pessoa letrada contribui para a igualdade racial e para o respeito, para com a inclusão dentro das empresas, dentro das escolas. Porque essa ideia de que somos todos iguais não existe, nós somos diferentes. E eu acho que isso que é graça, sermos diferentes.”
Na escola, isso se traduz em propor experiências que ampliem referências culturais e históricas, aproximando os estudantes de narrativas negras, indígenas e periféricas de maneira contínua e positiva. E há inúmeros materiais para isso, como explica a professora:
“Tem um material de Bárbara Carine que ela traz em seu livro 50 invenções científico-tecnológicas de pessoas pretas. Então a gente volta pra aquela ideia do conhecimento, da busca por conhecimento, porque muitas vezes são coisas que a gente não sabe, a gente desconhece.”
Esse processo começa pelo educador e sua disposição para pesquisar, rever, reaprender e reconstruir sua maneira de ensinar:
“Será que eu tenho alguma personalidade que possa apresentar para os meus alunos, e que vai dialogar com eles e que a gente vai discutir e vai tratar de forma crítica? E quem é que vai querer se identificar com uma história de dor apenas? O ideal é fazer uma prática mais leve e dialógica, na prática de diálogo, a prática de convivência cotidiana e de apresentação.”
A escola do futuro
A tecnologia transformou radicalmente a forma como acessamos informação. Mas, segundo Larissa, a facilidade pode se tornar uma barreira para aprofundar conhecimento:
“A gente vive numa era de tecnologia que, apesar de nos ajudar, é um obstáculo para a busca de conhecimento, porque a gente tem tudo muito fácil. Nem sempre as pessoas vão buscar informações mais complexas, de escopo mesmo e de coisas mais aprofundadas.”
Mesmo assim, ela acredita no poder transformador da escola — embora reconheça os desafios das novas gerações:
“Eu faço o que é possível diante da minha realidade. Mas eu tenho medo, porque a nova geração é difícil. [...] Mas acredito que a sala de aula é um espaço de esperança [...] Precisamos fazer o que é possível, mantendo a esperança para que a gente consiga pensar no futuro próspero.”
Para ela, a atuação de professores, escritores, ativistas e pesquisadores é parte central dessa construção.
Memória como eixo de transformação
Ao final da entrevista, Larissa reforça a necessidade de olhar para a história do Brasil com responsabilidade:
“Eu acredito que a gente precisa relembrar o passado, e sempre tratar da memória para que a gente consiga pensar no futuro. Pois só relembrando o passado, fazendo o presente e vislumbrando um futuro é que conseguiremos um dia aplicar o antirracismo com eficiência. E digo mais uma vez, a sala de aula é um lugar de esperança.”
Sobre a entrevistada
Mulher negra; Pedagoga; Especialista em Alfabetização e Letramento; Mestra em Educação e Contemporaneidade; Professora da rede pública do município de Salvador-BA; Vice-Gestora escolar; Atuante na Educação Infantil, Anos Iniciais e Educação de Jovens e Adultos; Pesquisa as interseccionalidades dos marcadores de exclusão - gênero, raça e classe.




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