top of page

Em tempos de tela, por que ainda precisamos da literatura?

há 3 dias
3 min de leitura

O papel da escola na formação de leitores


Por Vivianne Terrezo


Para que serve a literatura? Essa foi a pergunta, um tanto perturbadora, que ouvi certa vez. Em um primeiro momento, respondi que a literatura serve para dar vazão a sentimentos que nem sabíamos que existiam dentro de nós. Então surgiu uma segunda questão, ainda mais inquietante: se a literatura nos ajuda a reconhecer e expressar o que sentimos, o que estamos fazendo com ela?

É muito comum encontrar jovens e adultos, para não citar as crianças, com os olhos fixos nas telas, consumindo o que está em alta nas redes ou acompanhando a “dica de ouro” de alguém que promete que, se seguirmos seus passos, vamos “farmar muita aura”. A linguagem pode mudar, mas a lógica é conhecida: tudo precisa ser rápido, atraente e imediatamente recompensador.


Quando a pressa ocupa o lugar da leitura

O problema não está simplesmente no uso dos celulares ou das redes sociais. Essas ferramentas também informam, conectam pessoas e ampliam o acesso à cultura. A questão surge quando o consumo apressado de conteúdos passa a ocupar o espaço de experiências que exigem mais tempo, concentração e reflexão.

Os dados ajudam a dimensionar esse desafio. No Pisa 2022, apenas 50% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram o nível 2 ou superior em leitura, enquanto a média dos países da OCDE foi de 74%.

O dado não significa que esses estudantes sejam incapazes de ler, mas revela que muitos ainda encontram dificuldades diante de textos que exigem autonomia, atenção, interpretação e capacidade de estabelecer relações entre informações.

É justamente nesse processo de formação de leitores mais atentos e críticos que a literatura pode desempenhar um papel fundamental.

Ler é também aprender a interpretar


Ao acompanhar a trajetória de uma personagem, o leitor é convidado a compreender desejos, conflitos e escolhas que nem sempre coincidem com os seus. Mesmo quando discorda de uma atitude, precisa considerar as circunstâncias que a envolvem e uma perspectiva diferente da própria.

A literatura também amplia o repertório ao apresentar diferentes épocas, culturas, grupos sociais e maneiras de interpretar o mundo. Ao ler uma obra, o estudante aprende a lidar com ambiguidades, subentendidos, conflitos e múltiplas possibilidades de sentido.

Basta lembrar a pergunta que atravessa gerações de leitores de Dom Casmurro: “Bentinho e Capitu: traiu ou não traiu?” Mais do que encontrar uma resposta definitiva, o debate permite observar como diferentes leitores interpretam as mesmas pistas, avaliam a confiabilidade do narrador e constroem argumentos para defender seus pontos de vista.

A escola como espaço de formação de leitores

Por isso, a formação do leitor não pode ser responsabilidade exclusiva do professor de Língua Portuguesa. A família, a escola, os professores de outras áreas, a biblioteca, a coordenação pedagógica e a gestão também participam da criação de uma cultura de leitura.

Uma comunidade escolar leitora reconhece o livro e a literatura não apenas como instrumentos para avaliações, mas como experiências de conhecimento, convivência, imaginação e participação social.

É fácil? Não. Mas a dificuldade não pode justificar a inércia. O primeiro passo pode ser simples: conversar com os jovens sobre o que gostam de ler, criar rodas de leitura e abrir espaço para que compartilhem suas impressões sem que exista uma única resposta esperada.

E, se já utilizamos o WhatsApp para conversar, por que não criar grupos de leitura? A proposta pode começar com cinco amigos, uma obra e um momento para conversar sobre o que cada leitor encontrou no texto.

O chamado à leitura é urgente, mas pode começar de maneira simples: com um livro, uma pergunta e disposição para ouvir o que o outro descobriu.

Comentários


bottom of page